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Processo Civil··8 min de leitura·Por Marcelo Vicente Sociedade Individual de Advocacia

Justiça em Números 2026: onde estão as melhores oportunidades para a advocacia contenciosa?

Com base no Justiça em Números 2026, do CNJ, o diagnóstico é bastante favorável à advocacia contenciosa — mas não de maneira uniforme. Confira.

Justiça em Números 2026: onde estão as melhores oportunidades para a advocacia contenciosa?

O dado mais importante é que o Judiciário brasileiro continua recebendo um volume extraordinário de novas demandas, enquanto mantém um estoque gigantesco de processos pendentes. Em 2025 foram 40,9 milhões de processos iniciados, recorde da série histórica, e 45,2 milhões baixados, também em patamar recorde. Vide o arquivo relatorio-justica-em-numeros2026-1.pdf, anexo.

Os números do CNJ mostram um Judiciário gigantesco, altamente demandado e ainda congestionado. Para os advogados, o desafio não é encontrar processos: é identificar onde o volume, a complexidade e a transformação legislativa estão criando novos mercados jurídicos.

O advogado brasileiro costuma olhar para o mercado jurídico sob a ótica da concorrência: muitos profissionais, milhares de escritórios e dificuldade crescente para conquistar clientes.

Mas existe outra maneira — muito mais estratégica — de enxergar o mercado: olhar para os dados da Justiça e perguntar onde estão os conflitos, onde eles estão crescendo e onde o sistema ainda não consegue absorver a demanda.

O Justiça em Números 2026, do Conselho Nacional de Justiça, oferece exatamente essa fotografia.

E ela permite chegar a uma conclusão bastante interessante: o cenário para a advocacia contenciosa continua excelente, especialmente para quem estiver disposto a abandonar a lógica generalista e atuar em nichos de maior complexidade e valor econômico.

Um mercado de 40,9 milhões de novas demandas

Em 2025, o Poder Judiciário recebeu 40,9 milhões de processos, aumento de 3,5% e maior número da série histórica.

Ao mesmo tempo, foram baixados 45,2 milhões de processos, mantendo o Judiciário em seu maior patamar histórico de produtividade. Ainda assim, o estoque terminou o ano com aproximadamente 75,5 milhões de processos pendentes, embora tenha havido redução de 4,5% em relação ao ano anterior.

Ou seja: o Judiciário está produzindo mais, mas a demanda continua enorme.

Isso é importante para o advogado.

A existência de um grande estoque não significa simplesmente que existem muitos processos antigos. Significa também que existe uma enorme quantidade de relações jurídicas que continuam produzindo recursos, incidentes, execuções, acordos, impugnações, perícias, recursos aos tribunais e novas demandas.

O mercado contencioso, portanto, está longe de desaparecer.

Ele está, na realidade, mudando de perfil.

  1. Direito Cível: o maior mercado, mas também o mais concorrido

Se existe uma área que não precisa de apresentação, é o Direito Cível.

A Justiça Estadual encerrou 2025 com 58,3 milhões de processos pendentes, correspondentes a 77,2% de todo o estoque do Poder Judiciário. Mesmo com redução aproximada de 4% no estoque, ingressaram no ano 28,3 milhões de novos processos e foram baixados 31,4 milhões.

Dentro desse universo, o conhecimento não criminal — que reúne, entre outros, casos cíveis, família, empresariais e atos infracionais — apresentou 20,2 milhões de processos pendentes e 12,36 milhões de novos processos, com taxa de congestionamento de 63,2%.

Além disso, a Justiça Estadual produziu aproximadamente 30,6 milhões de sentenças e decisões terminativas em 2025, segundo a série histórica apresentada pelo CNJ.

A oportunidade está no nicho

O problema do contencioso cível não é falta de demanda.

É excesso de concorrência.

Para um advogado que pretende construir um novo negócio, portanto, entrar no mercado simplesmente como “advogado cível” provavelmente não é a estratégia mais interessante.

A oportunidade está em transformar o contencioso cível em contencioso especializado:

  • empresarial;
  • contratos complexos;
  • responsabilidade civil empresarial;
  • recuperação de créditos;
  • conflitos societários;
  • construção e infraestrutura;
  • saúde;
  • seguros;
  • imobiliário;
  • bancário;
  • tecnologia e proteção de dados;
  • disputas envolvendo grandes contratos.

Conclusão: mercado gigantesco, demanda permanente, mas necessidade de especialização para gerar diferenciação e margem.

Potencial para novos negócios: ALTO.

  1. Trabalhista: mercado enorme e novamente em expansão

A Justiça do Trabalho encerrou 2025 com 5,25 milhões de processos pendentes. O número representa aproximadamente 6,9% de todo o estoque do Judiciário.

Desconsiderando processos suspensos, sobrestados ou em arquivo provisório, havia cerca de 3,5 milhões de processos efetivamente em tramitação.

Mais importante: em 2025 ingressaram 5,2 milhões de processos, enquanto aproximadamente 5,1 milhões foram baixados. Portanto, diferentemente da Justiça Federal, a Justiça do Trabalho terminou o período com uma relação bastante próxima entre entrada e saída, mas com leve crescimento do estoque.

A produção também é expressiva: a série do CNJ aponta aproximadamente 5,8 milhões de sentenças e decisões terminativas em 2025, sendo cerca de 4,7 milhões no primeiro grau e 1,2 milhão no segundo grau.

Onde estão as oportunidades?

O contencioso trabalhista tradicional continua existindo, mas está cada vez mais pressionado por produtividade, tecnologia e padronização.

Para novos negócios, a oportunidade tende a estar menos no simples volume de reclamações individuais e mais em:

contencioso empresarial trabalhista, defesa estratégica de empresas, demandas coletivas, terceirização, novas formas de trabalho, remuneração variável, compliance trabalhista e prevenção de passivos.

O dado interessante é que a Justiça do Trabalho possui um tempo médio de tramitação pendente de 2 anos e 7 meses, sendo aproximadamente oito meses na fase de conhecimento e três anos e nove meses na execução.

Isso cria espaço para advocacia especializada em gestão do passivo, e não apenas em ajuizamento de ações.

Potencial para novos negócios: ALTO, mas mais seletivo.

  1. Tributário: aqui está uma das maiores oportunidades

É provavelmente neste ponto que os números do CNJ se tornam mais interessantes para quem procura novos mercados jurídicos.

As execuções fiscais representam aproximadamente 22% de todos os processos pendentes do Judiciário brasileiro e nada menos que 45% de todas as execuções pendentes.

São 16,4 milhões de execuções fiscais pendentes.

E a taxa de congestionamento é de 72,4%: de cada 100 processos de execução fiscal que tramitaram em 2025, apenas 28 foram baixados.

Do estoque total, 13,1 milhões estão na Justiça Estadual e 3,2 milhões na Justiça Federal.

Esse número muda completamente a leitura do mercado.

Não estamos falando apenas de “processos tributários”.

Estamos falando de milhões de empresas, empresários e pessoas físicas com algum tipo de problema relacionado à dívida ativa, execução fiscal, garantia, penhora, bloqueio patrimonial, prescrição, responsabilidade tributária ou regularização fiscal.

E existe um dado ainda mais relevante.

Na Justiça Federal, em 2025, ingressaram 6,4 milhões de processos, aumento de impressionantes 19,8%. O CNJ atribui parte relevante desse crescimento ao aumento de 700 mil processos previdenciários/assistenciais e de 373 mil execuções fiscais, esta última representando crescimento de aproximadamente 91%.

Na Justiça Federal, as execuções fiscais apresentaram 3,25 milhões de processos pendentes, 373 mil novos processos e uma taxa de congestionamento de 88,6%.

E aqui surge uma oportunidade que vai além do contencioso tradicional

O grande mercado não está necessariamente em “defender uma execução fiscal”.

Está em atuar antes, durante e depois do processo judicial.

Isso inclui:

  • diagnóstico do passivo tributário;
  • exceção de pré-executividade;
  • embargos à execução;
  • discussão de responsabilidade tributária;
  • desbloqueio de ativos;
  • recuperação de garantias;
  • prescrição;
  • revisão da dívida;
  • transação tributária;
  • negociação administrativa;
  • regularização fiscal;
  • planejamento para reorganização do passivo;
  • estratégia integrada entre esfera administrativa e judicial.

Em outras palavras:

o processo tributário pode ser a porta de entrada para um negócio jurídico muito maior.

E o próprio CNJ mostra que o sistema vem estimulando soluções alternativas e tratamento adequado dos conflitos tributários, inclusive por meio de políticas de conciliação e iniciativas relacionadas à execução fiscal.

Potencial para novos negócios: MUITO ALTO.

  1. Contencioso público: um mercado pouco explorado

Aqui existe uma ressalva metodológica importante.

O Justiça em Números não apresenta uma categoria estatística autônoma denominada “litígios de licitações” que permita afirmar, com precisão, quantos processos sobre licitações, contratos administrativos ou disputas com o Poder Público existem no país.

Portanto, seria incorreto transformar os números gerais da Justiça Estadual e Federal em uma quantidade específica de processos de licitação.

Mas isso não significa que o mercado não exista.

Pelo contrário.

O relatório mostra que existem estruturas especializadas dentro da Justiça Estadual, inclusive unidades destinadas a matérias específicas como execuções fiscais e saúde, além dos Juizados Especiais da Fazenda Pública.

Para a advocacia empresarial, o verdadeiro mercado de Direito Público está na interseção entre empresa e Estado.

E isso inclui:

licitações + contratos administrativos + concessões + PPPs + infraestrutura + sanções administrativas + tribunais de contas + improbidade + responsabilidade de agentes e empresas + equilíbrio econômico-financeiro + reequilíbrio contratual + regulação.

É um mercado particularmente interessante porque envolve problemas jurídicos de alto valor econômico.

Uma disputa envolvendo um contrato público de milhões ou bilhões de reais pode representar, para o cliente, um impacto econômico muito maior do que centenas de demandas cíveis individuais.

A oportunidade

Esse é um campo especialmente interessante para advogados que conseguem combinar:

Direito Administrativo + Contencioso + Empresarial + Regulação + visão econômica do contrato.

Potencial para novos negócios: MUITO ALTO em nichos especializados.

E talvez seja justamente uma das áreas menos exploradas por novos escritórios.

  1. Criminal: enorme volume e demanda permanente

O contencioso criminal também apresenta números expressivos.

Somente na Justiça Estadual, ingressaram em 2025 aproximadamente 3,8 milhões de novos casos criminais, além de 645,8 mil novas execuções penais. Consideradas conjuntamente, foram cerca de 4,5 milhões de novos processos criminais. A Justiça Estadual responde por aproximadamente 94,1% da demanda criminal do Judiciário brasileiro.

Na Justiça Estadual, o conhecimento criminal apresentava 5,46 milhões de processos pendentes, com taxa de congestionamento de 63,8%. As execuções penais também representam um estoque expressivo, com taxas de congestionamento elevadas.

A demanda, portanto, é estrutural.

Mas há uma diferença importante em relação ao tributário e ao Direito Público.

O criminal é um mercado com forte barreira reputacional, grande dependência de confiança e enorme sensibilidade do cliente.

Isso dificulta a transformação imediata de um novo escritório em uma operação escalável.

Por outro lado, cria excelentes oportunidades para quem consegue construir reputação em determinados nichos:

  • criminal empresarial;
  • crimes econômicos;
  • crimes tributários;
  • lavagem de dinheiro;
  • crimes ambientais;
  • compliance criminal;
  • investigação defensiva;
  • crimes digitais;
  • atuação perante tribunais.

Potencial para novos negócios: ALTO, especialmente no criminal empresarial e econômico.

O que os números realmente dizem ao advogado?

Se colocarmos as cinco áreas lado a lado, surge um cenário bastante claro:

Área Processos pendentes / demanda Tendência Oportunidade Cível 58,3 milhões pendentes na Justiça Estadual Demanda gigantesca 🟢 Alta Trabalhista 5,25 milhões pendentes Leve crescimento 🟢 Alta Tributário 16,4 milhões de execuções fiscais Forte pressão e transformação 🟢🟢 Muito alta Direito Público/Licitações Não isolado pelo CNJ Complexidade crescente 🟢🟢 Muito alta Criminal Milhões de processos e novas ações Demanda estrutural 🟢 Alta

Mas existe uma segunda variável que considero ainda mais importante:

o tamanho do mercado não é igual ao tamanho da oportunidade.

O cível possui o maior volume, mas também é provavelmente o mercado mais disputado.

O trabalhista possui enorme demanda, mas é altamente competitivo e bastante padronizado.

O criminal possui demanda permanente, mas depende fortemente de reputação e relacionamento.

Já o tributário e o Direito Público especializado apresentam uma combinação particularmente interessante:

alto valor econômico + elevada complexidade + grande estoque + necessidade de conhecimento especializado + baixa capacidade de solução automática.

É exatamente essa combinação que cria oportunidades para novos negócios.

A grande mudança: o advogado não deve vender “processo”

O dado mais importante do relatório talvez seja outro.

O Judiciário está ficando mais produtivo e mais digital.

O CNJ informa que o DataJud permite analisar processos por tema, situação, órgão julgador e outras variáveis. O Painel de Estatísticas também permite consultar processos novos, pendentes e conclusos por ramo, tribunal e órgão julgador, inclusive com dados sobre classes, assuntos e temas.

Isso muda o jogo.

O escritório do futuro não precisa esperar o cliente chegar dizendo:

“Tenho um processo.”

Ele pode identificar previamente:

“Você possui um passivo de R$ X, Y processos, determinada exposição fiscal e determinados riscos jurídicos. Existe uma estratégia possível.”

Essa mudança é gigantesca.

O advogado deixa de vender petições e passa a vender solução jurídica.

A oportunidade está no cruzamento entre dados e especialização

O CNJ registra que, em 2025, foram julgados aproximadamente 6,5 milhões de processos, maior produtividade da série histórica.

Ao mesmo tempo, o tempo médio dos processos pendentes permanece elevado: 3 anos e 7 meses no Judiciário como um todo, 3 anos e 8 meses na Justiça Estadual, 3 anos e 5 meses na Federal e 2 anos e 7 meses na Trabalhista.

Portanto, o processo continua sendo uma relação jurídica de longa duração.

E isso favorece escritórios capazes de atuar em todo o ciclo:

diagnóstico → estratégia → prevenção → processo → negociação → recurso → execução → recuperação econômica.

Minha conclusão: onde eu apostaria em 2026?

Se o objetivo for simplesmente identificar onde existem mais processos, a resposta é óbvia:

Direito Cível.

Se o objetivo for identificar onde existe maior possibilidade de construir novos negócios jurídicos especializados, minha leitura é diferente.

🥇 1º lugar — Tributário estratégico + contencioso tributário

É, na minha avaliação, a combinação mais promissora.

O estoque de execuções fiscais é gigantesco, a taxa de congestionamento é elevada, houve forte crescimento das execuções fiscais na Justiça Federal e o ambiente jurídico está estimulando soluções que combinam atuação administrativa, negociação e Judiciário.

O grande mercado não é simplesmente “processo tributário”.

É:

passivo tributário + contencioso + transação + regularização + estratégia patrimonial.

🥈 2º lugar — Direito Público empresarial

Especialmente:

licitações, contratos administrativos, concessões, infraestrutura, reequilíbrio econômico-financeiro, sanções e Tribunais de Contas.

É um mercado de menor volume quantitativo que o cível, mas potencialmente muito maior em ticket médio e complexidade.

🥉 3º lugar — Criminal empresarial/econômico

A enorme demanda criminal brasileira, somada ao aumento da sofisticação dos conflitos empresariais e econômicos, cria espaço para escritórios especializados.

A mensagem para o advogado

Os números do CNJ não mostram um mercado jurídico em retração.

Mostram exatamente o contrário.

40,9 milhões de novos processos em apenas um ano.

75,5 milhões de processos pendentes.

45,2 milhões de processos baixados.

16,4 milhões de execuções fiscais pendentes.

5,2 milhões de processos trabalhistas pendentes.

Milhões de processos criminais.

E, por trás de cada número, existe uma pessoa, uma empresa, um patrimônio, um contrato, uma dívida, um conflito ou uma decisão econômica que precisa de orientação jurídica.

A questão para o advogado, portanto, não deveria ser:

“Será que ainda existe mercado para a advocacia contenciosa?”

Os números respondem claramente que sim.

A pergunta mais inteligente é:

“Em qual problema jurídico de alto valor eu consigo me tornar uma referência?”

É aí que está a oportunidade.

O futuro da advocacia contenciosa não está necessariamente em ter mais processos. Está em ter processos melhores, clientes melhores, maior especialização e capacidade de transformar dados jurídicos em oportunidades de negócio.

E, nesse cenário, tributário estratégico, contencioso tributário e Direito Público empresarial despontam como algumas das áreas mais interessantes para quem pretende construir novos negócios jurídicos em 2026 e nos próximos anos.

Marcelo Vicente Sociedade Individual de AdvocaciaCom 28 anos de experiência, o Marcelo Vicente Sociedade de Advocacia é especializado em Direito Tributário, atuando fortemente no segmento corporativo com foco em consultoria, contencioso e gestão estratégica de passivos fiscais. O escritório oferece soluções personalizadas visando a mitigação de riscos e a otimização da carga tributária para empresas.
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